Prof. Dr. Sidnei Raimundo

A Ilha principal possui cerca de 196 hectares. Em sua porção nordeste situa-se o Saco do Funil, onde a Marinha do Brasil realiza treinamento de guerra, disparando obuses sobre suas encostas onde se encontram alvos pintados nos afloramentos rochosos. A declividade neste trecho fica em torno de 70%. A linha de costa da Ilha Principal é totalmente formada por costões rochosos.

 

Avistado do continente, ao público em geral pode escapar a importância desse arquipélago, que ergue-se como uma muralha em meio ao oceano, as vezes, escamoteado pela bruma da maresia e nevoeiros. Quando aproximamo-nos do arquipélago a observação de sua paisagem é fascinante e os detalhes das formas de relevo da vegetação "agarrada" a ele começa a nos dar pistas sobre o quanto ele é importante

 

A ação humana, só intensificou-se recentemente, com os treinamentos da Marinha do Brasil. Antes disso, as ilhas do arquipélago eram referências para a navegação ou para o abrigo no caso de uma mudança de tempo. Nesse sentido, os visitantes, desde os primórdios da colonização brasileira, tiveram em Alcatrazes uma orientação para suas rotas. Quando aproximavam-se delas, fugindo de uma tempestade, raramente desembarcavam. Preferiam apreciar as formas das Ilhas de suas embarcações. Talvez intimidados pelas formas inóspitas de seu relevo que dificultam sobremaneira a acostagem. Pelo acesso complicado, o imaginário dos pescadores produziu lendas sobre as Ilhas, principalmente por serem elas o único abrigo em meio à plataforma continental, situado entre Ilhabela e outras ilhas e lajes do litoral centro-sul paulista.

 

Os pescadores do litoral norte paulistas foram (e ainda são) um dos poucos freqüentadores do Arquipélago. A relação travada entre eles e Alcatrazes é de grande respeito. Seja pelo abrigo que elas oferecem, seja pela oferta de peixes, cujos cardumes também freqüentam as ilhas do Arquipélago em busca de alimentos. Importante destacar que atualmente é proibida a pesca nos arredores do Arquipélago, segundo determinação da Marinha do Brasil.

 

O espaço marinho é muito mais utilizado e explorado que sua porção emersa, o que propiciou uma baixa interferência humana nas terras do Arquipélago, exceto nos últimos 20 anos. É nessa ótica que devemos entender a importância de Alcatrazes: a vida das espécies da fauna e da flora se processando num lugar isolado do continente e interagindo mutuamente com o relevo e clima locais.

 

A paisagem, tal qual observamos hoje em Alcatrazes, nessa relação entre plantas, animais e o substrato geológico-geomorfológico, começou a tomar o aspecto atual a partir de um período geológico denominado Quaternário. Ocorreram fatores interessantes antes desse período (vide aspectos geológicos e geomorfológicos), mas nesse entendimento integrado do ambiente entre clima, plantas e relevo, os últimos 20.000 anos foram muito importantes para a configuração atual de Alcatrazes. 

 

Há indícios claros no Arquipélago, de sua ligação com o continente. O quê ocorreu entre 20.000 e 12.700 anos A.P. (Antes do Presente - 1950). Por motivos astronômicos e geofísicos, o clima do planeta mudou consideravelmente, tornando-se mais frio e seco. Parte das águas do sistema planetário ficaram aprisionadas nas calotas polares e altas montanhas. Tal fato resultou num rebaixamento do nível médio dos oceanos. Assim, nesse período, Alcatrazes ligou-se ao continente, sendo invadida por Formações de Mata Atlântica, que galgaram a planície arenosa que naquele momento aflorava até encontrar as "ilhas" do Arquipélago que tinham se transformados em maciços costeiros - tal como é o da Juréia, presentemente.

 

A secura do ambiente propiciou também a chegada de vegetação xerofítica: as cactáceas, entre outras espécies. Nesses quase 10.000 anos que esteve soldado ao continente, Alcatrazes consistia-se no último trecho de terras montanhosas na costa - as atuais ilhas eram morros isolados na imensa planície litorânea que se formou, morros estes que atraiam e eram abrigos para diversos animais favorecendo sua circulação. 

 

Mas, a partir dos últimos 12.000 anos, o clima da Terra começou a transformar-se novamente, encerrando o período mais seco e frio. À medida que nas baixas latitudes retornava a tropicalidade com o clima ficando cada vez mais quente, ocorria uma maior disponibilidade de água (em estado líquido) favorecida pelo degelo das calotas polares e altas montanhas. Com isso, o nível médio dos mares elevou-se.

 

Quando o mar dirigiu-se para seu nível atual, transformou Alcatrazes num Arquipélago e consequentemente isolou-o do continente.

As espécies de fauna e flora que ficaram "aprisionadas" na ilha iniciaram um processo de adaptação às novas condições que o isolamento obrigou. Algumas se extinguiram pelo excesso de competição e pela falta de habitats disponíveis. Outras, motivadas pelas modificações externas que o novo ambiente proporcionou, tiveram suas características alteradas por processo seletivo tornando-as adaptadas à nova situação. Dentre essas espécies, algumas tiveram fixadas a nova característica ao seu código genético, transformando-se em uma nova espécie - endêmica da área.

 

Nesse sentido, cada ilha pode ser caracterizada como um ecossistema individualizado. As ilhas são por estes, entre outros motivos, um laboratório natural. Os micro-ambientes contidos numa ilha, aliados ao isolamento geográfico, são de suma importância para a evolução biológica. Alcatrazes não foge a esta regra. Ele é um ecossistema delicado merecendo cuidados com sua preservação destacando-se ainda seu grande valor científico.

 

Alcatrazes, principalmente a ilha principal, não possui uma uniformidade ecológica. O isolamento geográfico e as condições adversas de uma ilha distante da atual faixa de costa, originou a formação de um mosaico de ecossistemas, parecidos com a que encontramos no continente, mas que guarda algumas peculiaridades. As formações florestais encontradas na ilha dos Alcatrazes são classificadas como de Mata Atlântica, apresentando um "parentesco" com as formações continentais.

 

Ao que se tem registro, todas essas formações permaneceram sob condições naturais até 1920. A partir daí começaram a sofrer algum tipo de alteração. Mas as mais significativas são encontradas na porção nordeste da Ilha Principal, num local denominado Saco do Funil.

 

Não se sabe como ocorreu a evolução da flora e fauna desde o isolamento geográfico de Alcatrazes até os dias de hoje. Sabe-se entretanto, que na década de 20 deste século, a vegetação que recobria as encostas do Saco do Funil era caracterizada como: "Mata com Predominância de Palmeiras", uma formação da Mata Atlântica, embora mais pobre do ponto de vista florístico do que as formações encontradas no continente.

 

Apesar de menos exuberante e com menor diversidade de espécies, em decorrência do solo raso e do clima mais seco, esta mata que ocupava o Saco do Funil até 1920 abrigava várias espécies da micro-fauna. Informa-nos Bondar (1964) que há fauna de hemipteros (aqueles que tem asas curtas), lepdóteros (borboletas e mariposas) e coleópteros (besouros) associados às palmeiras nativas brasileiras, sobretudo os últimos. Tais animais deveriam ocorrer com abundância no Saco devido à grande densidade de palmeiras.

 

A avifauna de Alcatrazes utilizava-se mais intensamente das formações vegetais encontradas até 1920 no Saco do Funil. O Saco do Funil foi habitação primitiva da fragata (Fregata magnificens), hoje habitando a região sudoeste da ilha. Já os atobás (Sula leucogaster) por sua característica de nidificação em solo deveriam preferir as áreas mais abertas desta formação vegetal, onde até hoje ainda tentam ocasionalmente se instalar: Em vistorias realizadas em abril de 1993 foram encontrados resquícios de três ninhos desta ave (atobá). As cinco ilhas do Arquipélago e três de suas ilhotas são locais de nidificação do atobá, nome atual do alcatraz.

 

Em suma, apesar de menos exuberante que a Mata Atlântica do continente, a "Mata com Predominância de Palmeiras", instalou-se nos trechos com solos mais profundos no Saco do Funil, abrigando a fauna anteriormente citada, entre outras espécies.

 

Os processos de degradação por que passou posteriormente a área, eliminaram completamente as palmeiras e as demais espécies da "Mata com Predominância de Palmeiras" e com ela toda sua fauna associada, algumas delas com possibilidade de serem endêmicas da área.

 

A paisagem atual do Saco do Funil é desoladora. A cobertura vegetal de "Mata com Predominância de Palmeiras", como mostra a foto de 1920, foi totalmente suprimida. O quê existe hoje recobrindo os paredões íngremes do saco são grandes manchas de capim gordura (Melinis minutiflora), que se alastrou por todo o local.

 

Ocorrem também, em menor quantidade, áreas com samambaias (Peridium aquilinum), localizadas nas altas vertentes do Saco. Esta samambaia é invasora e aparece especialmente após uma derrubada e queimada de mata.

 

De fato, o fogo parece ser o grande responsável pela substituição da cobertura vegetal nativa por espécies ruderais, como o capim gordura (Melinis minutiflora) e o sapé (Imperata brasiliensis), pois o fogo impede o crescimento de palmeiras novas, queima as rasteiras e enfraquece as palmeiras altas. O capim gordura é um convite ao fogo no período de inverno (das secas), agravando ainda mais as condições no Saco do Funil. Entretanto, o impasse agora está em detectar os responsáveis pelo fogo no Saco do Funil e consequentemente pela supressão da cobertura vegetal nativa.

 

A CETESB indica que o fogo tem origem antrópica, podendo ter sido causado por impactos dos tiros, pela explosão de artefatos bélicos ou pela ação direta.

 

Há que se ressaltar ainda que não é somente no momento dos bombardeios, quando os projéteis se chocam com as rochas ou pelo uso de granadas de fósforo, que o fogo pode ser gerado. O manejo da área com fogo pode contribuir sobremaneira para a degradação ambiental. Ou seja, para manter os alvos visíveis em virtude da vegetação primitiva, a MB pode ter realizado queimadas na área do Saco do Funil. Os alvos da área são repintados uma vez por ano, com abertura de trilhas para acesso aos mesmos.

 

Outra agravante ao processo de degradação da área é o revolvimento do solo. Além do fogo, o impacto dos projéteis contribui para acelerar o processo de erosão. O choque dos projéteis contra as rochas levanta uma pequena nuvem de poeira. Esta poeira nada mais é do que partículas de rochas, ou de areia do solo, desagregadas no momento do impacto. Essas partículas são muito mais susceptíveis de serem carregadas vertente abaixo pelas intempéries do clima (vento e chuva). Pode-se verificar o esfolheamento superficial e circular das rochas graníticas, com cerca de 20 cm de diâmetro no saco do Funil. Isto pode ter sido provocado pelo impacto dos projéteis.

 

O capim gordura (Melinis minutiflora) aliado à declividade excessiva torna mais grave o processo de erosão. A se manter a cobertura vegetal atual do Saco do Funil (capim gordura) e as interferências humanas negativas, a tendência será o aumento acelerado da erosão. Esta pode levar a perda total do solo, restando apenas a rocha exposta. O resultado será catastrófico uma vez que as palmeiras e a vegetação mais encorpada da mata não mais poderão lá se instalar. Alcatrazes possui locais muito restritos para a vegetação de grande porte, sendo o Saco do Funil um destes poucos locais. Continuando os processos de degradação acima citados, o Saco do Funil perderá completamente o substrato e não mais poderá sustentar uma vegetação de porte arbóreo. O quê será uma grande perda à diversidade das espécies da ilha. A área terá potencial de habitats apenas para a vegetação rupestre.

 

Já os turistas parecem procurar Alcatrazes pelas suas belezas submarinas. Permanecem em suas lanchas caso necessitem pernoitar no local. Provavelmente nunca acampam na ilha pois as condições topográficas não ajudam.

 

A degradação da área foi gerada pelo uso inadvertido, ou não, do homem. Tal fato pode ser facilmente comprovado pois em quase dois anos que a MB deixou de bombardear o Saco do Funil (desde julho de 1991) pudemos perceber a recomposição da vegetação nativa. Já ocorrem nos trechos mais úmidos (no fundo dos pequenos vales e nas áreas de baixa declividade) espécies pioneiras de mata, tais como a aroerinha (Schinus terebentifolius) e outras de porte herbáceo, que começam a competir com o capim gordura e o sapé. Ou seja, com a interrupção da principal intervenção antrópica na ilha (os bombardeios) a vegetação nativa começou a se recuperar, deixando claro que as reais causas da degradação no Saco são as atividades humanas e não as naturais. 

alcatrazes - descrição e história

foto: a.c. d'ávila